AO ESTILO JULIÁN MURGUÍA (Cláudio B. Carlos)

Cláudio B. Carlos (CC)

HAVIA uns negrinhos, que barrigudos e descalços, na frente das casas toscas, chupavam o ranho que escorria do nariz. Um deles, com cara de sem-vergonha, sempre piscava o olho pra mim quando passávamos a cavalo. Os guaipecas magricelas saíam de atrás de nós importunando as montarias, que assoleadas, espumavam nos beiços, mascando o freio e coleando as moscas. A um ponto do trecho tínhamos que atravessar o rio que em algumas partes mal-e-mal dava vau. Saíamos do outro lado com os pelegos pingando. Pra mim era folia, que ia junto de metido, com a desculpa de aprender o ofício. O pai fingia que acreditava e fazia vistas grossas quando eu amofinava o matungo dando-lhe de garrões e girando no matambre do bicho a roseta das esporas, fazendo-lhe galopar sem precisão. Na volta os peões traziam as malas-de-garupa repletas de fumo em corda, erva-mate e rapaduras. Eu tinha vontade de apear e dividir uma delas com os piás ribeirinhos, mas achando que o pai não fosse concordar acabava por seguir quieto no lombo do tostado.

Do livro Um arado rasgando a carne (2005).

A bela (Leonardo Brasiliense)

Leonardo Brasiliense

 

 

A mesa de cabeceira, redonda, setenta centímetros de altura. Madeira nobre, Ocotea teleiandra, laurácea. Quatro pernas habilmente talhadas, perfeita. Nessa noite coberta por uma toalha de linho bege, e sobre ela uma outra, menor, de crochê azul. O abajur, de cerâmica, pintado no mesmo azul, a cúpula de cordão natural. A luz, amarela e fraca, discreta.

Ao lado, na cama, Mariazinha: indescritível.

O LAGOÃO FECHADO (Julián Murguía)

Julián Murguía

Campo sem água não é campo. Para ser campo de verdade precisa ter um arroio, um lagoão, uma sanga. E mato.

Uma sanga sem mato não é uma sanga. É um valão com água. Um talho no campo.

O mato recebe, envolve e protege a sanga. E a torna mais redonda, mais íntima.

Assim, quando a gente chega perto dela, entra noutro mundo. Um mundo de sombra e viço, bem diferente do mundo do campo: calor e céu aberto ficam para trás.

Não há nada mais amistoso do que a sanga. O arroio e o lagoão, caudalosos e largos, são o fim do caminho. Intransponíveis e pouco acolhedores, emprestam somente suas margens. O mato não chega a abrigá-los, pois se abrem para o céu.

A sanga, em troca, é mais estreita, permitindo o cruzamento em vários trechos. Ela nos recebe e não nos intercepta. Entrega-se a nós e oferece tudo o que tem, como uma amiga.

Mas nos permite seguir em frente e deixá-la para trás.

Como uma amiga de verdade.

Havia um lagoão naquela sanga. Um pequeno lagoão de água quieta e tranqüila, sempre fresca.

Os salsos, os cachales, as guabirobas e um tarumã gigantesco a dotavam de uma cúpula verde, alta e fechada.

Chegar perto daquele lagoão era como entrar na nave de uma igreja: silêncio, a luz difusa, a sensação de uma solidão fechada.

A água quieta tinha um quê de mistério. Era escura, quase negra, porque nela o céu não se refletia. Escura, quieta, atemorizante. Nunca tive coragem de me banhar ali. Pescava, sim, mas só de dia.

Era ali que traziam os bois com as pipas, carregando-as de escuridão e de frescor. Porque eram estas as duas coisas que saíam daquele lagoão.

Do livro Contos do País dos Gaúchos, 3ª edição (1995), tradução de Sergio Faraco.

Recolhido do blog Veredas, de Pedro Luso.